Sigmund Freud já havia passado por muitos conteúdos psicológicos e uma guerra quando em 1927 escreveu o Mal Estar da Civilização, somando-se a isso a perda de um filho . Desse histórico de experiências gerou-se inferências que muitas vezes traduziram amargura em relação ao comportamento humano e à vida em si. Descreve a vida que nós homens encontramos ao nascer, como algo árduo demais para a maioria de nós. Fonte de sofrimentos, decepções e repleta de tarefas impossíveis. Deste modo, conclui que não resta ao homem senão desenvolver algumas medidas no sentido de “tirar luz de suas desgraças”.

Propõe duas maneiras de lidar com esses percalços existenciais : as maneiras mentais e as químicas.Ambas traduzindo a proposta de tentar transformar a reaçlidade, ou a percepção que temos dela.
As mentais levam-nos à engenhosidade de buscar o prazer em atividades como a ciência, ou mais simples, como “cultivar um jardim”.Atividades que rebuscam o intelecto. O aprender a fazer…

São medidas que tentam minorar o sofrimento inerente à vida e, delas se vale o homem desde seus primórdios, buscando reduzir a angústia e dar sentido a seu viver.

Encontramos o artifício de produzir cultura para ocupar nossas mentes inquietas, produzimos trabalho em quantidade suficiente para criar todo um universo, só não avançamos o suficiente no desenvolvimento das relações humanas. Talvez por isso continuemos tão expostos a angústia.

O sentido da vida, qual seria?A busca de sentido? A resposta de Freud é: felicidade. Afirma que o sentido da vida biológica é o princípio do prazer, afastar-se da dor, aproximar-se do que é prazeroso. Ocorre que, segundo ele mesmo descobriu, no homem esse princípio deixou de funcionar a contento.Desta forma, parece-lhe inevitável deduzir que a felicidade é algo absolutamente utópico e improvável, realizável apenas de forma episódica e de preferência ligado ao contraste,desenvolvedo atraves de experiencias referencias,ou a satisfação abrupta de intensas necessidades. Talvez nossa falta de habilidade para atingir um estado duradouro de satisfação resida justamente na forma como a compreendemos.

A forma de compreender a felicidade oriental apresenta algumas diferenças em relação à ocidental. Tenta ser mais calma, ir mais devagar, desenvolvendo uma sabedoria de quietude e disciplina para defender-se do sofrimento. Aproxima-se de um estado de tranqüilidade do que de uma sucessão de prazeres. Buscam o equilíbrio interno, eles não desconhecem o poder da mente para criar situações desagradáveis e enfermidades físicas. Tentam treiná-la numa direção pacificadora, pretendendo desfazer-se do ilusório para atingir algo mais duradouro. Trata-se, tanto o modo ocidental quanto oriental de viver, das tentativas de encontrar um estado de estabilidade, que poderia ser definido como saúde mental, onde predomine o bem estar. São caminhos diferentes com um mesmo objetivo.

Alguns orientais adotam uma forma mais discreta de buscar esse objetivo.Fazem com elegância e prudência de um felino, enquanto o ocidental é mais afoito, agindo mais impulsivamente. Tais diferenças talvez se possa colocar na conta da idade de cada civilização, seríamos como adolescentes.

Dentro da análise do estado de equilíbrio SNC em qualquer organismo vivo, podemos perceber que ele se move dentro de um princípio de economia de estímulos, sente apenas suas necessidade físicas, responde à elas e presta atenção ao meio. Na natureza a mente prefere o silêncio. Possivelmente isso guarde alguma relação com o desejo oriental de aprender a manter a mente em estado de quietude e o prazer que nisso encontram.

Voltando a Freud;o sofrimento nos ameaça em três direções: primeiro nosso corpo, sujeito a diversos males e fadado ao declínio e a morte; depois das forças relativas ao mundo externo que nos são desfavoráveis e, por último, o sofrimento a nós imposto pelos outros homens. De todas as formas de sofrimento a que estamos sujeitos, a mais dificil de lidar é a originada por outro ser humano em nós.Temos avançado, embora não tenhamos um domínio absoluto que nos livre de catástrofes naturais, do envelhecimento e das doenças, lidamos melhor com tais situações. Resta-nos amenizar o sofrimento que um indivíduo cause a outro, já que esta tem realmente sido nossa maior fonte de desprazer.

“Angústia é um muito apertado bem no meio do seu sossego.” – Adriana Falcão

1 Comment

  1. Carta de Clarice a uma amiga…
    “Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu…Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões – cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma”

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