Diogenes

 

Chamo-me Diógenes (*).

Procuro um Homem.

Escrito com maiúscula, porque com minúscula há muitos.

O mundo está cheio deles; os vejo passar na minha frente, atarefados de cá para lá, na luta diária do seu pão, ou de sua riqueza ou de suas posses.

Esses homens não me interessam.

O que busco com minha lanterna é o Homem Integral: aquele que busca o alimento de sua alma, a Deus. Aquele que se faz perguntas e busca as respostas na boca dos sábios. A quem as palavras honra, sacrifício, dever, representa-lhe algo mais do que um agrupamento de letras em um pergaminho. Aquele que sente a terra que pisa como mãe que nutre, não como um negócio para encher seus cofres. Aquele que vê no rosto dos homens, irmãos que respeita, não obstáculos em seu caminho ou formas só visíveis se forem úteis. Aquele que cumpre a lei porque sua consciência lhe impõe, não porque após o descumprimento vem o castigo.

Aquele que sabe prescindir de tudo, porque lhe basta Deus:eu descia ao porto quando chegavam os barcos carregados de mercadorias, porque gostava de constatar quantas coisas não me eram necessárias.

Diógenes, o Cão. Assim me chamavam. Pobre como um cachorro de rua e como ele necessita somente de um pedaço de pão e um lugar onde dormir.

Um lugar silencioso onde possa me retirar para meditar. Como filósofo que sou, isso é o que mais amo: buscar respostas para as grandes perguntas. Palavras que veio pedir-me um conquistador de mundos como Alexandre. Eu conquisto outras fronteiras: as da sabedoria.

Essa é minha riqueza. E para transmiti-la, para deixá-la como herança, procuro um Homem.

Não se apagará a luz de minha lanterna enquanto o procuro. Sei que existe.

Quiçá seja você.

(*) 

Diógenes de Sínope (413 – 323 a.C.)

Diógenes foi aluno de Antístenes, fundador da escola cínica. Em sua época Diógenes foi destaque e símbolo do cinismo pois tornou sua filosofia uma forma de viver radical. Diógenes expressava seu pensamento através da frase “procuro um homem”. Conforme relatos históricos ele andava durante o dia em meio às pessoas com uma lanterna acessa pronunciando ironicamente a frase. Buscava um homem que vivesse segundo a sua essência. Procurava um homem que vivesse sua vida superando as exterioridades exigidas pelas convenções sociais como comportamento, dinheiro, luxo ou conforto. Ele buscava um homem que tivesse encontrado a sua verdadeira natureza, que vivesse conforme ela e que fosse feliz.

Se quiseres que eu te mostre um varão verdadeiramente livre, apresentar-te-ei Diógenes. E de que modo chegou ele a ser livre? Destruindo em si tudo quanto o pudesse tornar presa da escravidão; desligado de tudo, completamente isolado, nada possuía. Dava tudo o que lhe pedissem, mas estava fortemente unido aos deuses e a ninguém era inferior em obediência, respeito e submissão para com a tal soberania. Estava aí a sua liberdade.”.

Diógenes era um anarquista. Quando Alexandre o Grande perguntou o que poderia fazer por ele, ouviu como resposta:

– Sai da frente que você está tapando o sol…

Com sua liberdade, Diógenes incomodava. Afinal, a vida em sociedade apóia-se na supressão das liberdades. Em nome do bem comum, leis e regras nos obrigam a renunciar a nossos desejos.

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