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“Sob a aparente desordem da cidade tradicional, existe, nos lugares em que ela funciona a contento, uma ordem surpreendente que garante a manutenção da segurança e a liberdade. É uma ordem complexa. Sua essência é a complexidade do uso das calçadas, que traz consigo uma sucessão permanente de olhos. Essa ordem compõe-se de movimento e mudança, e, embora se trate de vida, não de arte, podemos chamá-la, na fantasia, de forma artística da cidade e compará-la à dança — não a uma dança mecânica, com os figurantes erguendo a perna ao mesmo tempo, rodopiando em sincronia, mas a um balé complexo, em que cada indivíduo e os grupos têm todos papéis distintos, que por milagre se reforçam mutuamente e compõem um todo ordenado. O balé da boa calçada urbana nunca se repete em outro lugar, e em qualquer lugar está sempre repleto de novas improvisações.”BrazilSaoPauloPlRepublicaLituania

Vivemos de forma tão robotizada, autômata, que se descuidarmos a poesia da vida se esvai, perderemos  a sensibilidade a cor, sabor, o prazer já se foi…Sempre é tempo de darmos um tranco na alma e resgatar a nossa humanessencia…

Natalia Garcia, do site Cidade para pessoas, faz um trabalho semelhante, explicando que ao usar o carro nos envolvemos menos com a cidade, fazemos percursos menos reais, humanos e pessoais. Não nos vemos.

Sabemos que o mundo urbano esta cada dia mais caótico e violento, porém a insegurança parte de dentro. Observo situações e relatos entre vizinhos, comunidades ou mesmo entre pedestres, que cumpliciam cenas de dor, porém não tomam partido, não partem ao encontro da solidariedade, existe uma barreira entre o perigo desumano e o humano dentro de nós indo ao encontro do outro humano que sente e sofre tanto quanto. A insegurança aparece quando não oferecemos nossos olhos, quando não achamos necessário perguntar, intervir, entender o balé da sua vizinhança e notar se algo foge da normalidade. E é aqui que mora a dualidade do ato de se morar numa cidade moderna: olhar pelos outros, ser olhado e ainda assim conseguir manter a privacidade tão estimada dos grandes centros urbanos. O desafio de estarmos presentes sabendo que alguns detalhes não nos cabem.

BrazilSaoPauloStJoseNão é necessário que sejamos românticos: não precisa tocar a campainha para comer um bolo na casa da vizinha, mas o fato de saber que ela mora sozinha e não costuma fazer mudanças às três da manhã é um bom começo para que a costura social da rua aconteça. Notar o que é diferente, reconhecer os que moram por lá como iguais, saber dos estranhos que passam e oferecer ao balé da rua seus olhos atentos. Essa dança que acontece aos nossos olhos, não é em vão. Construir essa atenção focada no outro que habita ao lado, poderá contribuir para que nos sintamos mais acolhidos no terço de planeta em que vivemos.

Quando descobri o mundo que mora dentro da minha rua e como ele ressoa em mim, fiquei curiosa para ver relatos de outros balés. Passei a olhar muito mais por todas as ruas. E na minha, passei a desconfiar de barulhos esquisitos, horas estranhas e passei a olhar pelos que vejo diariamente. Esse habito pouco a pouco faz com que eu me sinta parte de uma engrenagem interessante da rua, do distrito, da cidade…do mundo…desenvolvi um olhar, um olhar para o externo que emparelha com meus internos mais secretos e iguais tantos outros ao redparque-ecologicoor.

Quem me dera a pureza necessária
para deixar para trás legítimas pegadas,
e que o sagrado caminho que me é dado
sempre estivesse iluminado, pleno em Vida…
mas, quando penso, gero sombras refletidas,
pois que não é o Eu que pensa ou que sente,
mas o seu cárcere, sempre tão presente
nos velhos traços deste espaço, convertido
em meu espelho,
ciclicamente.
Neste momento, sonhado e tão fecundo,
portal ou fresta entre o Eterno e este segundo,
a Alma nega o tempo e cria a trajetória,
vislumbra um Dia eterno, e aos ciclos desafia,
nega o egoísmo e rasga o véu que a cega,
supera o abismo e ao pleno voo se entrega,
calando as vozes da memória e do futuro,
plausível meta para quem sonha ser puro.
Nesta tão palpável eternidade,
na vizinhança da visão, da esperança,
quase a roçar algo do rosto da Verdade,
ainda que com toque tênue e fugaz,
o tempo morto se interpõe em minha porta,
mostra-me a torpe prisão-identidade
que volta a velar meu olhar
e,como um lastro, me arrasta para trás…
Vejo, porém, que não se cala o coração,
na ambição de alçar seu voo, ao final,
na negação total do porto em que se ancora,
miseravelmente atado,
para tocar, fazer vibrar cordas da lira
deste mundo manifestado,
deixando marcas, pegadas ascendentes,
deixando marcos para serem alcançados.
Busco encontrar sempre teu rastro, teu presente
o qual me cabe velar, como uma chama
tão luminosa, nas mãos de uma Vestal,
que apenas um coração puro o alimente,
que não se envenene com vícios
e não exija de outro Mestre o sacrifício
de construir e embalar outro presente,
brilhante e promissor, em seus inícios…
…mas condenado na luta permanente,
em outros ciclos de dor e glória igual.

beijinho
Rita
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