racismo vemser

O racismo (e a sua negação) voltaram à pauta do dia, com a violência sofrida por um jogador de futebol brasileiro, na Espanha.

Na Psicanálise, o racismo pode ser pensado a partir da ideia do *estrangeiro* (Unheimelich), desenvolvida por Freud.

O estrangeiro é aquilo que não é integrado e que, no interior do aparelho psíquico é vivido com inquietação, provocando sentimentos de amor, ódio e temor.

Freud também refletiu sobre um mal-estar na civilização e sobre a relação complexa que o humano mantém com seu semelhante. O racismo é uma manifestação desse mal-estar, um sintoma social e histórico.

O estrangeiro provoca, sempre, movimentos de alma: amor, ódio, temor, “amódio”, e, em nossos dias, oscilamos entre o fascínio que ele exerce – é o caso do exotismo – e o horror que provoca em nós – é o caso do racismo.
Objeto identificatório e contra-identificatório, o sujeito nunca permanece indiferente perante o estrangeiro, como se tivesse de fazer existir fora de si algo que lhe é interior. E se o Outro fosse eu mesmo?

Para avançar rumo ao tema que me foi proposto abordar, é preciso ainda lembrar que Freud foi o primeiro a falar da civilização do ponto de vista do analista, a falar de um mal-estar, chamando a atenção para a relação, no mínimo complexa, que o humano mantém com seu semelhante, já que o fundamento de todo amor é narcísico e que não há amor entre irmãos sem a rejeição dos estrangeiros.

É por isso que é sempre possível unir os homens entre si, sob a condição de deixar alguns outros de fora, para podermos dirigir nossa agressividade contra eles, uma vez que esta, longe de ser mera reação de defesa do indivíduo em perigo, está no âmago do desejo humano, instrumento e causa de seu prazer.

Desde que Freud chamou nossa atenção para o fato de que a segregação é anterior à fraternidade, a questão problemática do indivíduo com o grupo não perdeu sua atualidade &– muito pelo contrário &–, já que foi a partir da Segunda Guerra Mundial que o racismo se tornou um sintoma social, e o totalitarismo moderno nos mostrou até onde pode ir o humano quando se acirram as diferenças, a ponto de negar a própria condição de humano ao outro, reduzindo-o a um mero número tatuado no braço.

Ele não só previu a intensificação dos processos de segregação num momento em que a maioria dos pensadores apostava justamente no contrário, como insistiu no tema, sempre nos alertando a fim de que não esquecêssemos a lição freudiana de que a humanidade começa por um traço de exclusão inicial, razão por que, em vez de definir a humanidade por seus atributos, o fez segundo essa rejeição inicial cujo nome ésegregação. Essa é a tradução lacaniana da afirmação freudiana de que o homem mantém com seu próximo a mesma relação de ódio que sustenta consigo próprio, ódio que constitui a própria lógica do racismo enquanto sintoma social.

É importante não confundir xenofobia, etnocentrismo e racismo. Xenofobia é um termo que vem do grego e que quer dizer “medo do estrangeiro” &– a palavra xenos remetendo, em grego, tanto ao estrangeiro como ao hóspede, aquele que se acolhe e honra. A xenofobia, como medo do diferente, é de certo modo universal e tem a ver com a própria estrutura do sujeito &– é só observarmos o pequeno humano que de início sorri para todos, e que, aos poucos, ao reconhecer a própria imagem no espelho e se deixar cativar por ela, começa a manifestar suas primeiras reações de medo e recuo perante o rosto desconhecido, não familiar. É nelas que se enraíza a xenofobia infantil, mas, para que esta se transforme em racismo ativo, é preciso um discurso que nomeie o estrangeiro a ser odiado. Esse discurso é sempre social, pois o racismo demanda a existência de um discurso que autorize a pulsão agressiva, que nomeie o bode expiatório, tornando-o inapto a qualquer identificação.

O mesmo acontece com o etnocentrismo, definido por Lévi-Strauss (1952/1991) como uma atitude tipicamente selvagem, uma vez que todos os povos “primitivos” eram a seu ver etnocêntricos, na medida em que consideravam seu grupo étnico, sua nação ou nacionalidade socialmente mais importantes que os dos demais. No entanto, visto que um selvagem permanece adormecido no coração de todo homem “civilizado”, nada mais universal e difícil de ser eliminado que o etnocentrismo, pois cada um de nós continua persuadido de que a própria tribo é a única que vale.

O racismo é muito mais que mera agressividade, ele é ódio do outro, ódio não por algo que esse outro tenha feito, e sim pelo que é.

Nossas sociedades parecem levar cada vez mais em conta as vítimas, tanto as de dramas pessoais como de coletivos, do presente ou do passado, a ponto de a vítima estar se transformando, segundo Cacciali , na metáfora de nossa condição moderna. Não só concordo com ele, como acho isso preocupante na medida em que essa é uma posição de puro gozo, cada vez mais distante do que poderíamos chamar de um sujeito engajado na própria vida com todos os riscos decorrentes do exercício de seu desejo, se responsabilizando pelo uso de sua liberdade .

A vítima está permanentemente no registro da demanda de reconhecimento, demanda de reparação pelas perdas e danos sofridos. E por mais justa que uma reivindicação dessas possa parecer, estamos perante um sujeito cujo principal interesse é mais o ressarcimento de seu trauma do que a luta por seus direitos sociais. Padrão do “mundo me deve”.

Tratar da questão da vitimização é problemático, pois vivemos num mundo marcado pela tradição judaico-cristã que sempre glorificou a vítima, o que em geral nos impediu de reconhecer tanto o ódio que ela é capaz de despertar quanto o curto caminho que transforma a vítima em algoz.

Quero deixar claro, no entanto, que, ao me opor à vitimização generalizada, não estou negando a existência de vítimas de acontecimentos históricos trágicos e traumáticos. Pelo contrário, é justamente por reconhecer o tamanho e a violência de certos crimes, e por achar que não há como reescrever a História, que julgo importante afirmar que não há como ressarcir crimes como a escravidão, por exemplo.

Se me autorizo a tomar a escravidão como exemplo de crime que não pode ser ressarcido, o faço em função do debate atual sobre a política de cotas na universidade brasileira e porque, como tantos outros, temo que tal política possa desembocar no que poderíamos chamar de “discriminação reversa”. Uma discriminação, ainda que positiva, não deixa de ser uma discriminação, e não vejo como seria possível transformar uma cultura de discriminação e intolerância por meio de outra discriminação.

Para fundamentar meu ponto de vista, irei me utilizar do recurso de viajar um pouco pela História e trazer para o presente as palavras de um filósofo sobrevivente de Auschwitz, Yehuda Elkana, citado por Ginestet-Debreil, para quem a visão do genocídio que tenta fazer do povo judeu eterna vítima de um mundo hostil é uma velha crença que se constitui paradoxalmente na trágica vitória de Hitler. A partir daí o autor analisa a atitude israelense em relação aos palestinos, afirmando que:

Determinar a relação do presente e modelar o futuro exclusivamente em função das lições do passado constitui uma ameaça para o futuro de toda sociedade que deseja, assim como os outros países, viver em relativa segurança e serenidade… A própria existência da democracia é posta em perigo quando a lembrança do passado das vítimas desempenha um papel ativo no funcionamento do político. Os ideólogos dos regimes fascistas o compreenderam… A utilização do sofrimento passado como argumento político se resume em associar os mortos ao processo democrático dos vivos… (Ginestet-Debreil, 1997, p. 175).

Essa longa citação ilustra exatamente a posição que gostaria de sustentar, a de quão mortífera pode ser a posição de vítima que nos leva a viver num mundo cada vez mais à mercê de violências etnocêntricas, em que as minorias fechadas em suas diferenças de classe, raça, religião ou cultura proclamam que a vida, tal qual ela é, aqui e agora, é injusta demais, não obstante nada façam para torná-la mais justa, contentando-se em exigir reparação pelos danos sofridos.

Convém não esquecer que o pensamento freudiano chamou nossa atenção para o fato de que nossas diferenças singulares servem de pretexto para a agressividade que atinge tudo aquilo que é diferente, particularmente quando essas diferenças têm suas raízes em terreno cultural ou social A violência dos conflitos identitários de nossos dias incita a “tomar partido” pelo universal, lembrando que o pensamento freudiano, marcado pelo Iluminismo, sempre preservou a referência ao universal, indispensável para pensar a diferença e sustentar uma ética de abertura ao outro.

Termino com o pensamento de Arendt, para quem a única maneira de sair do ressentimento é através da gratidão. O que ela evidencia é que não estamos sós no mundo e que apenas podemos nos reconciliar com o gênero humano e com as diferenças entre os homens se tomarmos consciência, como de uma graça extraordinária, do fato de que, não o homem, mas os homens habitam a Terra. E lembrar-se disso, em psicanálise, significa que a sobrevivência dos fundamentos éticos da humanidade depende da possibilidade de transmissão da palavra de uma geração a outra, dizendo respeito à humanidade como um todo, com a universalidade da civilização se impondo à diversidade cultural.

 Bom, é isso

Pensem nisso, mas agora…

beijinho

Rita

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