Homem ou Animal?Não dá para esquecer em nenhum momento que somos animais. Animais que se tornaram racionais e que neste processo tornaram-se mentalmente mais complicados. Ganhamos comodidades e provavelmente o direito a uma vida mais longa do que tínhamos como nômades. A agricultura foi uma aquisição importante, garantia maior de sobrevivência e oportunidade para o início do processo de civilização. Mas este é um processo que exige muitas modificações de comportamento. Um animal não apresenta mais do que rudimentos de pensamento, agindo instintivamente. Significa que segue suas necessidades e que estas são ditadas unicamente pela biologia. Não há conflitos a nível psíquico. Sem chance deles existirem num animal irracional. Garantimos o acesso ao conflito interno e, por conseqüência ao externo, quando interpusemos entre o impulso e a ação, o pensamento.

O homem costuma pensar antes de agir. Pode-se achar tal coisa extremamente desejável, no entanto certamente não é coisa fácil de ser executada já que pressupõe um julgamento, o certo e o errado. Até hoje não chegamos a uma conclusão sobre isso e tentamos convencer uns aos outros do acerto de nossa forma de julgar. Se obtivemos grandes conquistas com o ato de pensar, acrescentamos também muita confusão às nossas existências e todos sabemos quantas situações e ações errôneas surgem de um pensamento distorcido.

Também é verdade que o pensamento representando a consciência moral, tanto pode frear atitudes instintivas danosas como outras que não necessitariam ser bloqueadas, gerando inibições. É difícil alterar tão profundamente uma natureza e ainda assim lograr encontrar um equilíbrio. É justamente esse novo equilíbrio que buscamos exaustivamente.

Apenas gostaria de indagar: se o objetivo da civilização foi o de elevar o nível de bem estar e promover a vida humana, em que ponto nos perdemos?

Precisamos prestar atenção ao fato de que nenhum animal sobre a terra adoece tanto do ponto de vista mental quanto o homem. Há sofrimento nisso, muito sofrimento. Se a loucura é a suprema perda de liberdade, não podemos negar que a espécie humana tem um passe de acesso facilitado a ela..

É próprio do homem civilizado adoecer mentalmente muito mais do que qualquer outro animal. Quando eles vêm para o nosso convívio é que adoecem.


Entrevista de Sigmund Freud ao reporter G. Sylvester Viereck em 1930 para o “Glinpses Of the Great”,na residência de verão nos Alpes Austríacos. Nesta época Freud estava com tumor no queixo, sentindo-se pessimista mas resgatava os pequenos prazeres como ficar com a família, cuidar das plantas, muito mais do que virar imortal. “Os meus 70 anos tem me ensinado a aceitar a vida com jubilosa humildade”.

– As vezes me pergunto -eu lhe disse- se não seriamos mais felizes sabendo menos dos processos que dão forma aos nossos pensamentos e emoções. A psicanálise despoja à vida dos seus últimos encantos ao vincular cada sentimento ao punhado de complexos que o originam. Descobrir que todos nós guardamos no coração um selvagem, um criminal, uma besta, não nos-faz mais felizes.


– E o que tem o senhor contra as bestas? -inquiriu Freud- Eu prefiro muito mais a companhia dos animais do que a das pessoas.


– Por que?


– Porque eles são muito mais simples. Não tem uma personalidade dividida, não sofrem com a desintegração do ego que surge da tentativa do homem de se adaptar a uns padrões de civilização enaltecidos demais para os seus mecanismos intelectuais e psíquicos.


O selvagem, como a besta, é cruel, mas ele está isento da mesquinhez própria do ser civilizado. A mesquinhez é o modo que tem o homem de se vingar da sociedade pelas restrições que esta lhe-impõe. É o sentimento de vingança que anima o reformista e o fofoqueiro. Um selvagem pode cortar nossa cabeça, devorar-nos, torturar-nos mais ele vai nos poupar das pequenas e constantes picadas que as vezes fazem com que a vida numa comunidade civilizada resulte quase intolerável.


Os hábitos e as idiossincrasias mais desagradáveis do homem, a sua falsidade, covardia e falta de respeito, são engendros de uma adaptação incompleta a uma civilização complexa.  É o resultado dos conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura.


Para quem se interessar pela leitura, já se encontra na página de downloads o livro: O Mal-Estar da Civilização de Sigmund Schlomo Freud

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