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Uma onda arrebenta.

Ela se dissipa em mil ondinhas, que, por sua vez, são encrespadas por mais outras mil microondinhas. Explode em miríades de gotas onduladas que refletem o desabamento da onda,uma fração de segundo — cada uma sob um ângulo diferente. A onda é, ela própria, uma ondinha da imensa onda da tempestade que contém milhares de ondas. Onda de ondas nas ondas. Onda de formas vivas, onda de povos e pessoas, onda de emoções e pensamentos. Abundância do mundo, magia dos fenômenos, a cada segundo.

Até mesmo os pensamentos são mágicos.

As emoções, elas também,nascem, sobem, arrebentam, se dispersam e se reverberam para de novo aparecerem idênticas e diferentes. Contemple suas emoções,tristes ou alegres, como contemplamos o mar, como sentimos o ven-to. Os pensamentos só são venenosos se, em vez de prová-los, lhes obedecemos.

Viver as emoções significa provar bem clara e lucidamente, e nos mínimos detalhes, os acontecimentos de nossa experiência como ondas transitórias no fluxo da existência. Não acreditar um segundo sequer na realidade dos objetos que imaginamos suscitar essas emoções, nem na realidade do sujeito que deve experimentá-las.

Diante de miríades de acontecimentos mentais, podemos congelar coisas, pessoas, significações, valores, um “eu”, e nos manter firmes no sofrimento. Mas podemos também, se seguíssemos o encadeamento apropriado, abandonarmos lucidamente ao fluxo, à variedade das energias, ao caráter climático e instável da experiência.

Prefira sentir a textura, a qualidade, a intensidade das emoções a acreditar no que elas lhe representam.

A emoção é perfeitamente real. O elo da emoção com seus objetos é que é ilusório. Você efetivamente deseja, mas não tem, de fato, necessidade do alvo particular de seu desejo. Está sem dúvida irritado, mas o objeto da irritação não é sua causa.

Ao sentir a emoção, você está presente.

Ao acreditar que ela o representa, fica preso na armadilha da ilusão,sonha, se ausenta.

 No lugar de fugir do sofrimento, você pode senti-lo como uma energia.

Do mesmo modo, tudo o que entra em seu mundo pode ser percebido como uma qualidade de energia em vez de um objeto de que se quer apropriar, rejeitar ou ignorar. Não há nem bem nem mal,nem belo nem feio. Cada ser, cada acontecimento interno ou externo é um comprimento de onda, uma freqüência, uma cor do espectro.

Durante muito tempo confundi o recalque com o autocontrole.

Quando o sofrimento aumenta, sinta-o aumentar.

Quando a dor vem, deixe-a vir.

Sinta suas emoções aqui, agora, no presente.5046_423008987754641_1301645181_n

Não as reprima,não tente escapar delas, tampouco passe ao ato automaticamente.Isso seria mais uma tentativa de fuga. Sinta a emoção integralmente. Permaneça nela. Não se refugie no pensamento (Não se pergunte por que ela dói, de onde vem, o que dói exatamente, como poderia parar, etc).

Não aja para fugir da emoção (A maioria dos atos estúpidos acontecem quando fugimos de uma emoção desagradável: agredir para não sentir a raiva, pegar para fugir da inveja ou do sentimento de falta, atordoar-se para esquecer da dor, etc).

Cruzo com um cachorro na rua. Tenho, em geral, medo de cachorro. Mas em vez de me deixar tomar pelo medo, acreditar em meu pensamento de medo e torná-lo real, posso reconhecer o medo como um pensamento apenas. Então, no lugar de tornar-me prisioneiro do medo, passo a observá-lo e prová-lo. Imagino que o cachorro virá me cheirar as panturrilhas, depois me morder. Sinto o medo como uma emoção rica e interessante, ao passo que teria podido sofrer de um medo que quer sempre parecer “objetivo”, “real”. Se em vez de dar crédito às nossas emoções, as observássemos com atenção, elas perderiam o poder que têm sobre nós. Não nos dariam mais medo (mesmo o medo não nos daria mais medo) e poderíamos acolhê-las, sem julgá-las nem reprimi-las.

Quando deixamos de nos identificar com as emoções e com os pensamentos que julgamos,paramos de nos julgar. Quando paramos de nos julgar, fica mais fácil não mais julgar os outros, compreendê-los e ter uma atitude amigável em relação a eles. Ficamos livres para a percepção da beleza do mundo e do prazer de ser. Podemos provar as texturas da existência. Inclusive o medo. Sinta as emoções positivas. Sem forçá-las, dê espaço para que possam emergir, aqui e agora, por quase nada.

Um sopro de ar fresco, o encontro de um amigo, o choque de uma paisagem, o calor do sol em seu rosto, a imensidão de uma noite estrelada sobre seus olhos,a eclosão de uma idéia, um gole sorvido de vinho, o simples fato de viver e respirar.

Isso não quer dizer que devamos esconder o rosto diante do mal ou da mediocridade da existência, mas, ao contrário, que podemos provar o que há de bom em cada situação. E sempre há algo de bom. Não fuja das emoções positivas — o amor, a alegria, a ternura, o reconhecimento —, porque elas são o sal da vida, a felicidade. Deixe-as crescer, desabrochar, prove-as. Com grande freqüência, mais do que vivê-las no presente, costumamos nos lembrar delas no passado, ou então projetá-las no futuro, esquivá-las na corrida,escamoteá-las na precipitação, afogá-las em infinitas preparações,neglicenciá-las na distração. Depois, mais tarde, arrependemo-nos de não ter aproveitado o momento de prová-las plenamente. E é assim que passamos ao largo da vida. a emoção, o toque da alma.Sinta suas emoções negativas, porque elas são os sinais que o permitem proteger-se e dirigir sua vida. Para fazer uma analogia com a esfera do corpo, se você não sentisse dor, se passasse o tempo se anestesiando,correria o risco de se queimar, se cortar, acabar terrivelmente estropiado. Ora, isso é exatamente o que costuma acontecer na esfera da alma.

Você está gravemente doente porque passa o tempo fugindo,negando, evitando a dor de todas as maneiras possíveis. Se quer que sua alma esteja inteira, deve se reeducar a sentir: “Ali dói! Sinto-me… humilhado, frustrado, tenho medo, estou com raiva, triste,tenho dificuldade, estou com muita inveja, odeio, etc.”

Não tente compreender as emoções.

Contente-se no momento de reconhecê-las e provar plenamente a maneira como elas ganham corpo: garganta fechada, crispação da nuca, dor no peito, no ventre, sensação de opressão, náusea, dor de cabeça, taquicardia,enrubescimento, palidez, fadiga, abatimento. A lista não é finita. Você também pode lhes dar um nome: medo, frustração, tristeza, ódio,culpa, inveja, etc. Só quando a sensação é reconhecida, provada, sentida, observada, estudada em suas manifestações físicas, sem que o pensamento escape do aqui e do agora da sensação, só quando esse trabalho é realizado é que você pode deixá-la partir. Então, só então, a sensação cumpriu sua função mensageira.

As emoções, não os discursos que querem impor sobre você, nem aqueles aos quais você se apega, só as emoções, como eu dizia, sãos os melhores informantes sobre sua vida, o mundo que o cerca, aquilo que você deve fazer e sobretudo evitar fazer.

Observe com atenção as emoções que as pessoas ao redor suscitam em você.

Que isso o ajude a escolher suas relações, seus amigos, seus amores. Enquanto fugimos instintivamente da dor física (quem deixa a mão em cima de uma chama por muito tempo?), deixamo-nos queimar com pensamentos torturantes. Você sabe em que estado está sua alma?

Não tanto para que já tivesse adquirido e treinado pacientemente sua sensibilidade às emoções, sua presença atenta ao sofrimento.

Não se foge instintivamente da dor moral. Isso se aprende. Aprenda a identificar suas quedas íntimas, seus encantos fatais, seus reflexos maléficos, suas partes mortas, suas zonas anestesiadas.Depois comece a se reeducar. Ninguém pode fazê-lo em seu lugar.Ninguém pode sentir por você. A emoção é nossa interface com o mundo.

Se nossa alma tivesse pele, seu toque seria a emoção.

A armadura que você veste sobre a alma a fim de protegê-la de eventuais golpes, também está protegendo de qualquer afago.

Os ferimentos são nossas maiores riquezas. Eles mantêm aberto o caminho para o coração. Quando você congela o coração com medo de vê-lo sofrer, deixa-o morrer para a alegria.

Não se transforme em um morto-vivo!

A insensibilidade ao sofrimento provoca a morte da alma.

Quando deixamos de viver as emoções, passamos a projetá-las, a nos iludir, a nos perder na confusão.

Beijinho

Rita

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