vemser-sofrimento

Se o viajante não encontrar um companheiro igual ou melhor Que não sofra a companhia de um insensato Mas caminhe decididamente só

Dhammapada

Eis a condição humana: somos sozinhos, perdidos, temos dor e uma imensa necessidade de amor. Todo o resto é construção artificial. Sofremos porque somos sensíveis.

A irritabilidade é própria de todos os seres sensíveis.

Para não mais sofrer deveríamos nos entorpecer, nos anestesiar, nos transformar em mortos-vivos. Uma atenção elevada e bem exercida em nossas sensações físicas e estados de espírito nos convence bem rápido de que o sofrimento é constante. Ou somos presa de um mal-estar físico ou mental, ou, perfeitamente satisfeitos, gozamos de uma sensação de bem-estar. Mas o medo da dissolução mina secretamente a sensação agradável.

Quanto mais nos satisfazemos, mais nos habituamos ao prazer e mais dependemos dele; um vício que acaba trazendo mais preocupações, temores e sofrimentos sem fim.

Somos todos drogados à nossa maneira.

É justamente por causa do caráter permanente do sofrimento (ainda que ele se manifeste com cara e intensidade bem variada) que temos tanta dificuldade de viver o instante: se estivéssemos plenamente presentes, nos confundiríamos com nosso sofrimento, com o sofrimento de todos os seres sensíveis.

Fugimos do sofrimento presente, corremos atrás dos supostos prazeres que estão por vir, ausentamo-nos perpetuamente.

Acreditamos evitar o sofrimento, insensibilizando-nos de mil maneiras. No entanto, só poderíamos dominá-lo, estudando-o, e só podemos estudá-lo, recuperando nossa sensibilidade fundamental. Não decidimos seguir o caminho espiritual para suprimir o sofrimento, tornar-nos invulneráveis. O que encontraremos no fim da viagem não é uma felicidade sentimental e paradisíaca, a vida transformada em parque de diversões, aquela bondade típica de desenho animado.

Decidimos trilhar essa vereda para viver a verdade da vida, estar presente no mundo, estar aí. Escolhemos esse cami-nho para nos tornar sensíveis, humanos, compassivos. Quanto mais abrimos o coração, mais sentimos o sofrimento (o nosso e o dos outros: só há um) e menos alimentamos os mecanismos que o sustentam.

Se os carrascos fossem sensíveis, não poderiam cometer seus crimes. A insensibilidade provoca tudo aquilo que nos assombra na espécie humana. Ao dirigir o feixe de nossa atenção para o mundo interior, descobrimos o imenso universo da sensibilidade. Passamos a conhecer essa enorme massa viva, ultra-sensível, irritável e terna que é o coração.

O medo de sofrer, a esperança do prazer, os pensamentos do ego formam a compacta carapaça que reco11051815_10153003278018952_7532297501540056436_nbre essa carne esfolada. Mas sob o couro do ego, desnudamos o tesouro que estava ali desde sempre, a requintada delicadeza da alma, a inteligência do coração,mais fina e precisa do que qualquer conceito imaginável. Não olhe para o que você vê. Sinta o que a visão faz no seu coração.

 Os conceitos nos separam do instante, do fluxo permanente das sensações. São construídos pelo medo de sofrer. Afastando-nos de nossa experiência, os conceitos nos extraviam. Motivados pelo temor, eles são ilusórios. Por serem ilusórios, nos fazem sofrer. Para reconhecer a inveja e a agressão, em si e nos outros, pare de pensar e comece a sentir. Eis as duas sabedorias.

Uma, que anda na frente, a consciência triunfante, a luz que tudo ilumina impiedosamente, a inteligência discriminante que faz explodir a menor pretensão do ego. E a outra,que anda atrás, a sabedoria que cresce lentamente com o desenvolvimento da alma, da sensibilidade, da intuição, do toque compassivo do coração, a sabedoria que floresce sobre o cadáver em decomposição do ego; quando não tememos mais o sofrimento, quando os mil detalhes da dor passam a ser nossos melhores informantes, quando a sede de prazer e segurança pára de velar a beleza, a profundeza e a sutileza infinita da alma.

O coração terno, ou a vulnerabilidade, é o centro da generosidade, da compaixão, do despertar, da santidade. É também a verdadeira fonte da inteligência.

Todo ser humano possui essa fonte, mas nenhum deles sabe que aquilo que há de mais precioso nas jóias está também no que elas têm de mais simples.

Diz-se na tradição cristã que aqueles que têm o poder de sentir integralmente o seu sofrimento e o dos outros — de senti-lo a ponto de chorar por ele — têm o “dom das lágrimas”.

Só grandes santos e santas tiveram esse dom, tão maravilhoso quanto a graça do sorriso. A base da sabedoria, a inteligência do coração, a grande sensibilidade nada mais é do que nossa própria vulnerabilidade, tão humilde e ordinária, mas que, se decidimos escutá-la e louvá-la, pode ofuscar o brilho de milhares de sóis reunidos.

BEIJINHO

RITA

 

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