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Observando minha vida e também algumas que acompanho, percebo que muita gente não tem tempo de parar, como se cada prática fosse um tarefa a mais em uma lista de tarefas já infinita, como se nossa transformação fosse algo “extra” em nosso cotidiano. Então, diante dessa configuração, é saudável apostar em práticas simples para uma inclusão sem esforço em meio ao movimento.

Levamos as perturbações de um mundo para dentro do outro, de uma relação para a outra, costurando uma coerência que não existe, conectando eventos independentes e tomando decisões a partir daí.
As sensações de correria, pendência, desânimo, acúmulo, certeza, seriedade, peso, carga, estresse — de fracasso e até mesmo de sucesso — só surgem porque somos incapazes de soltar. Soltar o quê? Histórias, tensões no corpo, visões empedradas sobre nós mesmos e sobre os outros, falatório interno, lembranças compulsivas, fabricações mentais tomadas como realidade, antecipações, fixações, caras e bocas de todo tipo.

Imagine uma tela de cinema na qual todos os filmes se sobrepõem, ou um espelho que guarda tudo o que reflete: depois de pouco tempo não dá para ver mais nada. Nossos olhos são assim.
Paixão, divórcio, inveja, ciúme, raiva, medo, preguiça, competição, torpor, distração, apego, carência… Antes de tudo entortar, repare como o nosso olho entorta, fica contaminado, se fixa ou se enfraquece, joga, espera, exige, manipula, tenta seduzir ou agradar, prefere, finge, mente, projeta. As violências mais grosseiras começam com as violências mais sutis que começam em um micro alteração no brilho dos olhos, como se surgisse uma camada adicional entre nós e a realidade, um véu, uma lente, um micro sonho.

Do mesmo modo, podemos praticar tudo diretamente com os olhos: relaxar, descondicionar, ver qualidades, oferecer, se alegrar, amar, cuidar, proteger, não reagir, dar nascimento elevado, irradiar, pacificar, acolher, ampliar, liberar, cortar, sorrir…

Convido você para um experimento: nos próximos dias, entre dois momentos (ao fechar ou abrir a porta de casa, entre duas reuniões, entre um email e outro, no corredor), pare por alguns segundos e solte o que acabou de acontecer. Deixe que aquilo se vá, não conclua nada, não leve nada e principalmente: não costure com outra coisa. Não alimente sua narrativa pessoal. Resete.

Limpe os olhos do conteúdo que se acumulou.

Ao fazer isso, você verá que a energia surge, assim como podemos estar quase dormindo em uma palestra chata, mas logo acordamos dispostos ao ver que chegou o slide final. Aquilo que não soltamos é exatamente aquilo que condiciona e asfixia nosso relaxamento, nossa estabilidade, nossa vivacidade natural.

É sempre possível inaugurar a vida. Não precisamos esperar por uma crise para começar do zero (melhor do que recomeçar). Teste agora mesmo, ao acabar a leitura: deixe cair os ombros, desobstrua a respiração, relaxe a mandíbula, a língua, a garganta. Deixe que o ar saia e leve tudo. Não segure nada. Solte o texto junto com a exalação, sem pressa de encontrar o momento seguinte com os olhos claros, vazios de conteúdo. Ah…

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